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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

GÊNESE E EVOLUÇÃO DOS SOLOS NA BACIA DO CÓRREGO DO QUEBRA - GOUVEIA - MG

 

 

Leonardo Cristian Rocha

rochageo@hotmail.com

Vilma Lúcia Macagnan Carvalho

Vilma@igc.ufmg.br





Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos


 

A compreensão da dinâmica evolutiva de uma vertente tem perpassado por inúmeras linhas de pesquisa. Nas últimas décadas, o estudo pedológico da vertente por meio de toposeqüências solos, tem apontado para influência de outros fatores de formação no desenvolvimento das características e propriedades dos solos.

O clima, o material de origem, forma da vertente, processos geomorfológicos, percolação e infiltração de água, são alguns dos elementos responsáveis pela formação de solos diferenciados em uma mesma vertente. Ressalta-se, entretanto, que estes elementos atuam de maneira conjunta na transformação pedológica.

Considerando todos estes fatores, busca-se uma compreensão da dinâmica pedológica ocorrida em uma vertente do Córrego Quebra, no município de Gouveia - MG, observando através da toposeqüências de solos as diferenciações laterais expressas na vertente. È importante ressaltar que o presente trabalho foi elaborado a partir de uma disciplina ministrada durante o curso de mestrado em Geografia no Instituto de Geociências – UFMG, em que houve a colaboração dos alunos dessa disciplina[1].

O município de Gouveia encontra-se localizado no Espinhaço Meridional, numa área geológica de extrema complexidade, tendo por predomínio as rochas do Supergrupo Espinhaço e secundariamente as rochas do Grupo Macaúbas. A região de Gouveia apresenta, como principal litologia rochas do embasamento cristalino, xistos verdes, quartzo-mica xistos e quartzitos.

A grande variedade litológica e estrutural, aliada a influência climática, proporcionaram a esta área uma diversidade de formas de relevo, nas quais a ação dos agentes erosivos produz variados resultados. Segundo Augustin (1995)[2], por se tratar de uma região fortemente marcada pela gênese tectônica e composição litológica, o relevo do Espinhaço demonstra um condicionamento estrutural comprovado na área de Gouveia pelo conjunto de serras que possuem suas cristas direcionadas no sentido norte-sul. Nesta área pode-se observar a existência de três níveis topográficos que apresentam diferentes feições e que ressaltam numa área deprimida, conhecida por depressão de Gouveia.

Nesta região pode se observar uma atuação expressiva de processos erosivos, devido a ação moderada de processos químicos e mecânicos na elaboração do relevo, tendo como processo mais comum a erosão laminar ou em lençol. Podem ser observados outros processos erosivos freqüentes como o rastejamento, deslizamentos, ravinamentos e voçorocamentos. Este último é o processo erosivo que tem provocado maior impacto ambiental, com grande degradação dos solos e assoreamento de córregos e rios pelo material carreado.

A rede de drenagem no município de Gouveia pertence à bacia do rio São Francisco, compostas de duas sub-bacias de primeira ordem, afluentes do rio das Velhas.

O tipo climático predominante nessa área, segundo a classificação de KOPPEN, é o Cwb – mesotérmico, caracterizado por verões brandos e úmidos e invernos secos com temperaturas baixas, sendo o índice médio pluviométrico anual de 1.290mm e a temperatura média anual é 18ºC.

A vegetação de cerrado e campos rupestres degradados ocupam grande parte das encostas dessa região e servem como pastos naturais, dividindo o espaço com pastos plantados, em geral com a espécie Brachiária sp.

A Análise da vertente estudada apresenta um comprimento aproximado de 750 metros, com declividade média de 5%, sendo definidos três compartimentos diferentes e identificados em função de fatores topográficos, hídricos, bióticos e pedológicos.

O primeiro é caracterizado por declive pouco acentuado equivalente a 3%, referente ao topo da encosta, com presença de afloramento rochoso e apresentando cobertura vegetal de gramíneas com uso voltado para o pastoreio bovino. Nesse compartimento foi analisado um perfil pedológico que apresentou características de cambissolo. Em relação à taxa de infiltração do solo, esta não é favorável a pedogênese em função da proximidade da rocha em relação à superfície. A dinâmica hídrica é diferenciada em função da presença de materiais diferentes representados pela cobertura pedológica e litológica. O contato entre esses dois materiais, próximo a superfície, se constitui em fator limitante à infiltração da água, favorecendo o escoamento superficial.     

O segundo encontra-se situado na média vertente com presença de concavidade e a incidência de uma linha de drenagem, acompanhado por uma vegetação predominantemente de porte arbóreo e arbustivo. Nesse compartimento foram analisados dois perfis, em que o material pedológico analisado apresenta características de latossolo vermelho-amarelo. As condições de drenagem interna desse compartimento são favoráveis à pedogênese, devido à topografia, à influência da mata e a presença de material de origem coluvionar.[3]   

O terceiro compartimento situa-se na baixa vertente, composto por cobertura vegetal de gramíneas com arbustos esparsos e marcada por declive mais acentuado. Foi verificado em campo a presença de afloramento de rocha xistosa e coberturas detríticas, provavelmente originadas de veios de quartzo que cortam transversalmente a vertente, e devido a estes aspectos foram encontrados litossolos nesse local. As coberturas detríticas são mais significativas na proximidade da ruptura de declive ocorrente na transição da baixa vertente para o terraço fluvial. As condições de drenagem interna do solo, nesse contexto geomorfológico, são variáveis em função da espessura do colúvio e/ou da posição do veio de quartzo e da ausência desses dois fatores.

Diante da constatação dos diferentes tipos de solos ocorrentes ao longo da vertente, pode-se sugerir a existência de dois processos de coluviação ocorrentes em épocas diferenciadas.

De acordo com Valadão (1986)[4], o primeiro processo de coluviamento, mais antigo, de abrangência regional é responsável pelo pacote coluvial de granulação mais fina e de coloração mais avermelhada, identificado principalmente na média e transição da média para baixa vertente. O principal indício da existência desse colúvio é a variação lateral de cor dentro de um mesmo perfil. O segundo, mais recente, de abrangência local, origina-se da fragmentação dos veios de quartzo e redistribuição desse material na vertente, compondo os pavimentos detríticos encontrados na baixa vertente, mas é importante ressaltar que o pavimento detrítico não é apenas originado da desintegração dos veios de quartzo, mas também de materiais mais grosseiros transportados de áreas fontes mais elevadas na região. Há ainda um colúvio de coloração mais amarelada que é mais recente que os demais. Isso justifica em algumas partes da vertente horizontes bem diferenciados, pois a pedogênese não ocorre apenas sobre uma rocha matriz, mas esta pode ocorrer sobre colúvios de idade e composições diferentes.

A transformação pedológica de latossolo para cambissolo é gradual devido à correspondência entre os horizontes dos perfis analisados. Na transição do cambissolo para litossolo a correspondência só ocorre nos primeiros horizontes, por causa da descontinuidade imposta pelo veio de quartzo, marcando uma transição abrupta.

Atualmente, nos estudos pedológicos, o solo é compreendido como uma cobertura pedológica; uma cobertura contínua ao longo da encosta. O solo é um sistema complexo e estruturado, inserido na paisagem, que sofre transformações estruturais e mineralógicas progressivas de suas organizações tanto verticais como laterais[5].

O método utilizado nessa pesquisa seguiu Boulet et all (1982)[6], que definiu o conjunto das organizações da cobertura inicial e das coberturas transformadas de sistemas de transformação pedológica.

Seguindo as etapas propostas da Análise Estrutural da Cobertura Pedológica, fez-se o seguinte:

a)      Selecionou uma unidade representativa do relevo da bacia do Córrego do Quebra com ajuda de cartas topográficas, geológico-geomorfológicas, de solos, fotografias aéreas na escala de 1:8.000, sendo essa área já foi amplamente estudada por professores e alunos do IGC/UFMG, como parte de um projeto mais abrangente que tem como objetivo o conhecimento da dinâmica geoambiental da região.

b)      Definida a área, uma vertente longa de 750m de distância, fez-se o levantamento topográfico, com balizas e clinômetro, iniciando-se, assim o estudo da toposseqüência. No transecto, foram abertas quatro trincheiras: uma no topo da vertente, duas intermediárias, na meia encosta e uma na base. Entre as trincheiras foram realizadas tradagens para identificar as variações laterais existentes. Estas, concentraram-se na parte baixa da encosta, onde foram observadas relevantes diferenças pedológicas nos horizontes.

c)      O perfil de cada trincheira foi descrito analisando-se suas características pedológicas, sucessões, espessuras dos horizontes, limites, transições e feições pedológicas de cada horizonte.

d)      De posse dos dados colhidos em campo, desenhou-se o perfil topográfico longitudinal. Nele os horizontes encontrados nas trincheiras e as tradagens foram unidos, possilibilitando identificar diferentes organizações laterais.

 

Os níveis de organizações pedológicas estão embutidos uns nos outros; isto é tais organizações ocorrem em todas as escalas de observações, deste a megaescala (cobertura pedológica, toposseqüência), passando pela macroescala (perfis do solo, horizontes dos perfis) até a microescala (agregados dos horizontes, constituintes dos agregados, elementos dos constituintes). Por isto é necessário integrar as análises das diferentes escalas do estudo do solo, da paisagem ao microscópio.

A micromorfologia de solos, que é o estudo das organizações microscópicas (microorganizações pedológicas), ao analisar os constituintes e organizações do solo em uma escala de milímetros e mícrons, torna-se um complemento fundamental para um estudo pedológico detalhado. Dessa forma, durante o estudo da toposseqüência (macroescala) foram colhidas amostras do solo que serão analisadas em laboratório (microescala) para o esclarecimento das hipóteses levantadas em campo.

Diante dos estudos realizados e as observações de campo, percebe-se que na região há vários fatores que interferem na formação e na transformação dos solos, como por exemplo, os veios de quartzo que interferem significativamente nos processos de pedogênese e os diferentes tipos de colúvios encontrados. Esses fatores levam a região de Gouveia a apresentar singularidades que intrigam e instigam a comunidade científica a buscar resposta e resultados para os processo que envolvem a região, principalmente a intensa erosão ocorrida na região marcada pelos processos de voçorocamento.

Diante disso o presente trabalho buscou definir a evolução da pedogênese a partir da metodologia de transformação pedológica, contribuindo assim para o conhecimento da gênese e evolução dos solos da região, dos processos que ocorrem, principalmente sobre os voçorocamentos.  Mas para isso ainda é preciso ter análises mais aprofundadas sobre os solos estudados na região, sendo que os demais questionamentos e resposta sobre a evolução dos solos só serão possíveis a partir de análises laboratoriais, tais como análises químicas e granulométricas e principalmente a microscopia a partir das lâminas delgadas de solos, que serão de suma importância para o melhor entendimento dos processos pedogênicos que envolvem a região.

È importante ressaltar que neste trabalho foram priorizados as observações e dados de campo que levaram aos questionamentos e resultados acima apresentados, mas foram também realizadas coletas de amostras deformadas e indeformadas para que sejam feitas análises laboratoriais, e posteriormente tais dados estarão disponíveis para justificar ou não as indagações levantadas no presente trabalho.

 

Referências Bibliográficas:

 

AUGUSTIN, C.H.R.R. Aspectos geomorfológicos da região de Gouveia, Espinhaço Meridional, MG. Belo Horizonte: SBG/MG, 1995. 

 

BOULET et all. Os Sistemas de Transformação em Pedologia In: Boletim de Geografia Teorética, 1982. nº 20 (39): 5-20. Tradução de Carlos Roberto Espíndola, 1990.

 

CARVALHO, V.L.M. Sistema de Transformação Pedológica em uma Vertente do Município do Espírito Santo do Pinhal (SP). Rio Claro: IGCE/UNESP, 2000. Tese de doutorado.

 

QUEIROZ NETO, J.P.de. Análise Estrutural da Cobertura Pedológica no Brasil, 1998.

 

VALADÃO, R. C. Estudo Sedimentológico das Formações Superficiais do Sistema Alveolar do Córrego dos Pereiras. Monografia de graduação, Instituto de Geociências/ UFMG, 1986.


 


[1] Alunos participantes: André Coelho, Fernanda Belotti, Leonardo Paim, Maria E. Lima, Regina Guimarães, Renata M. dos Santos, Saul Silva, Vânia Figueiredo e Valéria Barbosa.

[2] AUGUSTIN, C. H. R. R. Aspectos geomorfológicos da região de Gouveia, Espinhaço Meridional, MG. Belo Horizonte: SBG-MG, 1995.

[3] De acordo com VALADÃO, R. C. Estudo sedimentológico das formações superficiais do sistema alveolar do Córrego dos Pereiras. Monografia de graduação, Instituto de Geociências/ UFMG, 1986.

[4] Idem 3.

[5] De acordo com QUEIROZ NETO, J. P. Análise estrutural da cobertura pedológica no Brasil, 1988.

                                                                   

[6] BOULLET et all, Os sistemas de transformação em pedologia. In: Boletim de Geografia Teorética, 20 (39): 5-20, 1990. Tradução de Carlos Roberto Espíndola.