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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

SOLOS DA BACIA DO RIBEIRÃO CHIQUEIRO EM GOUVEIA-MG, RELACIONADOS AOS TIPOS DE UNIDADES FISIOGRÁFICAS LOCAIS





Saul Moreira Silva*, Cristiane Valéria de Oliveira**
Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais.
Av. Presidente Antônio Carlos, 6627. Campus Pampulha,
Belo Horizonte – MG, CEP: 31.270-901





Palavras chave: Pedologia, Superfícies Geomórficas, Geomorfologia
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos
 








INTRODUÇÃO


O levantamento pedológico expressa a sua importância para as ciências da natureza por possibilitar a avaliação do potencial e as possíveis limitações de uso de uma determinada área. É ainda um importante item a ser considerado em estudos de viabilização de projetos, planejamento de manejo e conservação ambiental por possibilitar a prevenção de riscos no uso de um determinado tipo de solo.
Vários trabalhos científicos relacionados à Pedologia trazem a tona questionamentos sobre o levantamento de solos no Brasil, isso porque o levantamento pedológico pode auxiliar na elaboração de um planejamento ambiental de uma região de forma equacional(racional) e equilibrada a fim de proporcionar um equilíbrio na utilização dos recursos naturais.
O mapeamento dos solos no Brasil é traçado em uma escala de informação em nível nacional e estadual e raras vezes em nível municipal, não permitindo assim o planejamento de manejo e conservação do solo relacionado a pequenas e muito menos a microbacias hidrográficas.
Todos os solos que compõem o sistema pedológico da paisagem são resultantes de processos de degradação e agradação das estruturas de relevo que integram a paisagem. No entanto, não se pode furtar ao entendimento da dinâmica de gênese do solo que os seus fatores de formação atuam de forma diversificada no meio, fazendo com que estruturas de relevo idênticas possam apresentar solos diferenciados.
A região de Gouveia em Minas Gerais, há tempos se tornou objeto de estudos, principalmente, de geógrafos, geomorfólogos e de geólogos, fase ao número de feições erosivas instaladas na paisagem da região. Contudo, a região carece de um levantamento pedológico detalhado que possa subsidiar a compreensão dos processos erosivos atuantes sobre o sistema pedológico da região.
Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi o de realizar o levantamento pedológico detalhado das porções Leste e Sul da bacia hidrográfica do Ribeirão Chiqueiro que se encontra inserida na região de Gouveia em Minas Gerais, buscando relacionar a dinâmica do sistema pedológico em relação à estrutura de relevo.
 

RELAÇÃO PEDOLOGIA E GEOMORFOLOGIA
 

Como já descrito anteriormente, o relevo é um dos fatores de formação do solo. O relevo detém um papel expressivo na formação do solo, sendo em algumas situações, o principal fator determinante da pedogênese, mas cabe ressaltar que ele nunca será o único.
Além da pedogênese, o relevo influência de forma marcante no processo de rejuvenescimento do solo por ser detentor de seqüências topográficas onde atuam forças físicas que possibilitam tanto o acúmulo como o transporte de elementos do solo. Esta influência pode ser facilmente perceptível na paisagem, como também, pode exigir um exercício de maior percepção por parte do observador. A influência do relevo no solo pode ser encontrada tanto em nível de macro, meso e pequenos compartimentos de paisagens.
A ação do relevo no sistema solo, se dá por ação de força da gravidade, pela força da ação eólica, bem como pela ação de outras forças que podem variar conforme a zona climática na qual estiver inserida o solo. No entanto, pode-se dar destaque para o elemento “água” que detém dinâmica de infiltração (sentido vertical) e escorrimentos (sentido lateral de acordo com as linhas de drenagem) por ação da força da gravidade. Associada a outros elementos naturais como a radiação solar e a vegetação, a água atua diretamente no clima dos solos agindo de forma marcante no processo de evolução do solo.
Este simples panorama, por si só, justifica a necessidade da realização de estudos que demonstrem a íntima relação Solo-Relevo, por serem ambos elementos de constante modificação exercida pela razão gerada a partir das ações e reações ocorrentes entre energia e matéria atuantes no sistema.
Milne(1934) foi um dos pioneiros a estudar as relações existentes entre o solo e o relevo, a partir de estudos de variações dos solos em relação ao relevo e a drenagem na África do Sul. O autor introduziu o conceito de catena, no qual foi possível avaliar a influência da topografia na diferenciação lateral do solo, onde cada tipo de solo presente ao longo de uma vertente demonstra relações com o tipo de solo imediatamente acima e também com o que se apresenta logo abaixo.
O termo catena, que até hoje é empregado pelos pesquisadores, é uma unidade de mapeamento utilizada para descrição de um grupo de solos que sofrem modificações morfológicas, relacionando-se diretamente com a classificação, que se encontra ligada às condições topográficas e às repetições de ocorrência da mesma.
Para a Geomorfologia, a paisagem é a união de formas de relevo transformadas no decorrer dos processos de formação da mesma, sendo o solo parte integrante das formas do relevo, resultante da ação de fatores que marcam a evolução da paisagem. Com isso, pode-se concordar com Penteado(1974), que propõe uma integração da Pedologia com a Geomorfologia, pois o relevo constitui o meio no qual os solos se desenvolvem, sendo assim, um dos fatores condicionantes da pedogênese. Para ela, a Geomorfologia deve levar em conta os dados pedológicos, uma vez que, a morfogênese atua nos solos e não diretamente sobre a rocha, ou seja, o processo de denudação é elemento de moldagem da paisagem, atuante sobre o solo.
Queiroz Neto(2000) aponta os resultados obtidos nas últimas duas décadas através da análise estrutural das coberturas pedológicas que, segundo ele, possibilitam rever as relações entre Geomorfologia e Pedologia reavaliando o papel da pedogênese na evolução do relevo. Os resultados apontados pelo autor são: 1) a circulação interna das soluções do solo é um fator tão importante no modelado do relevo quanto a erosão superficial; 2) as coberturas pedológicas em equilíbrio dinâmico testemunham condições de menor atividade erosiva, enquanto sistemas de transformação lateral testemunham desequilíbrios hídricos nas vertentes; 3) a presença de linhas de pedras e de horizontes sômbricos enterrados podem ser resultantes de atividade biológica; 4) a gênese de corpos ferruginosos (couraças e concreções) podem representar apenas uma etapa da alteração das rochas e formação dos solos, não sendo assim testemunhos de ações paleoclimáticas.
Autores como Penteado(1974) e Lepsch et al.(1977) afirmam que o estudo geomorfológico detalhado deve preceder o mapeamento dos solos, pelo fato de possibilitar o estudo temporal e espacial de onde os solos evoluíram, para que assim seja possível estudar as relações entre os solos e o relevo. No entanto, a estruturação do solo em conjunto com outros fatores, delineia e molda as estruturas de relevo, sendo a morfogênese comumente exercida sobre os solos, e não sobre a rocha sã.
As propriedades mecânicas do solos, bem como as propriedades físicas, químicas e até mesmo biológicas, proporcionam uma íntima relação entre a Pedologia e a Geomorfologia, posicionando os dois ramos em um “Loop”, ou seja um círculo de retroalimentação, que faz com que ambas as ciências envolvidas mantenham um forte vínculo com relação a evolução natural da paisagem.
Atualmente no Brasil, vários pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos relacionando solo-paisagem. Para a área de trabalho, tem-se a pesquisa desenvolvida por Diniz(2002) para a porção Norte da Bacia do Ribeirão Chiqueiro, onde o autor, acredita haver uma estreita ligação entre os tipos de solos, a Geomorfologia, a Litologia e a cobertura vegetal.
 

CARACTERIZAÇÃO DA BACIA DO RIBEIRÃO CHIQUEIRO
 

Localizada no Estado de Minas Gerais na região sudeste do Brasil, a bacia hidrográfica do Ribeirão Chiqueiro está circunscrita aos municípios de Gouveia e Datas na micro região mineradora de Diamantina, sendo que aproximadamente 80% da área da bacia esta inserida nos domínios do primeiro município, local este onde corre o leito principal da bacia estudada (Figura 1). O município de Gouveia está situado entre as latitudes de 18º 25’ e 18º 36’ sul e entre as longitudes de 43º 42’ e 43 50’ oeste, a uma distância real de aproximadamente 165Km e à 252Km de percurso rodoviário da capital mineira "Belo Horizonte".
 

Figura 1:Mapa de Localização da Bacia do Ribeirão Chiqueiro
 

A região do município de Gouveia encontra-se sobre domínio morfoclimático do Cerrado, onde seguindo a classificação de Köppen, o clima é determinado como sendo do tipo Cwb-mesotérmico com verões brandos e úmidos e invernos secos com baixas temperaturas.
No contexto geológico, a área de estudo, esta inserida na faixa médiana-central da Serra do Espinhaço Meridional correspondendo à uma faixa orogênica, limitada a Sudeste pelo Cráton São Francisco (Abreu, 1995). A bacia do Ribeirão Chiqueiro esta enquadrada na depressão Gouveia, sobre rochas granitoídes, orto e paraderivadas metavulcânicas possibilitando ao relevo morfologias colinares policonvexas mais ou menos suavizadas (Saadi, 1995). Segundo Augustin(1995a) e Saadi e Valadão(1987a,b) a depressão onde está instalada a bacia estudada possui uma direção N-S, originaria do intemperismo diferencial de três grandes conjuntos tectono-estratigráficos: O Complexo Basal (Embasamento cristalino), o Supergrupo Rio Paraúna e o Supergrupo Espinhaço.
A Geomorfologia local, apresenta um relevo com uma amplitude altimétrica de 700m entre o ponto mais alto que está localizado na Serra do Engenho com 1650m e o ponto mais baixo onde o Ribeirão Chiqueiro deságua no Ribeirão Areia a uma altitude de 950m.
Segundo Saadi(1995) a Serra do Espinhaço pode ser dividida em dois compartimentos de planaltos, que ocupam o norte e o sul da serra. O autor denominou os dois planaltos como sendo Planalto Meridional e Planalto Setentrional.
A bacia do Ribeirão Chiqueiro encontra-se localizada no Planalto Meridional, estando estruturada em quatro compartimentos geomorfológicos determinados por níveis altimétricos conforme Saadi e Valadão(1987a,b):
• Acima de 1300m - sobre domínio de morros e cristas monoclinais com altitudes médias de 1400m, representando um relevo residual Pós-Cretáceo, modelados em rochas quartzíticas e metaconglomeradas do Supergrupo Espinhaço;
• entre 1250 e 1300m - sobre superfície tabular apresentando ortoquartzitos da formação Galho do Miguel em uma superfície dissecada que trunca as rochas dos Supergrupos Rio-Paraúna e Espinhaço;
• entre 1000 e 1250m - marcando o fundo da depressão ocupada por colinas e interflúvios modelados nos xistos e granitos. Os topos planos e nivelados em altitudes de 1050 a 1100m correspondem a relíquias de pedimentos onde as partes superiores formam degraus embutidos na base das escarpas periféricas;
• entre 950 e 1000m - é o ambiente dos fundos de vales que apresentam alternâncias de alvéolos entulhados por aluviões e trechos estreitos encaixados nos cursos médios. No entanto, nos cursos inferiores, planícies aluviais, em atual processo de calmatação, se apresentam, mesmo com a tendência regional ao encaixamento dos talvegues no assoalho rochoso.
A nascente do Ribeirão Chiqueiro ocorre na Serra do Juá, a noroeste da Depressão de Gouveia. A bacia Hidrográfica do Ribeirão Chiqueiro (Figura 2) apresenta um direcionamento principal no sentido N-S como afluente do Ribeirão Areia que desemboca próximo ao município de Capitão Felizardo no Rio Paraúna, sendo que este último tem o seu leito correndo no sentido L-W, vindo a desembocar no Rio das Velhas que é afluente do Rio São Francisco. A rede de drenagem segue um padrão determinado pela litologia, sendo dendrítica no domínio dos granitos e gnaisses, e retangular no domínio dos quartzitos.
 

Figura 2: Mapa da Rede Hidrográfica da Bacia do Ribeirão Chiqueiro.
 


METODOLOGIA


A primeira etapa deste trabalho consta da realização de um trabalho de campo para reconhecimento da região, da bacia do Ribeirão Chiqueiro e da área de levantamento pedológico. Esta etapa foi realizada com uso de fotografias áreas, estereoscópio de bolso e material cartográfico disponível para a região, que possibilitaram uma melhor depuração das unidades morfológicas da área.
Durante este trabalho de campo, estas unidades morfológicas foram descritas e utilizadas para a confecção de um estereograma que serviu de referência para a fotointerpretação geral na etapa seguinte, visando a confecção do mapa “Fisiográfico de Serviço”.
A Segunda etapa deste trabalho é relacionada a fotointerpretação, onde foram utilizadas fotografias aéreas em escala de 1:25000, vôo Cruzeiro do Sul, DNPM/CPRM do ano de 1979.
A fotointerpretação foi realizada com uso de estereoscópio de mesa, seguindo como referência o estereograma composto para referência das unidades fisiográficas da região. Neste estereograma foram compostas unidades de relevo que serviram para confecção dos layers de interpretação fotográfica. A legenda de interpretação dos layers e do mapa fisiográfico de serviço constava dos seguintes itens:
• T1 - áreas de relevo plano a suavemente ondulado, com desnivelamentos pequenos, associados a Formação Sopa Brumadinho;
• T2 - áreas de relevo bastante movimentado com desnivelamentos grandes, associado-se à áreas com predomínio de escarpas de declives muito fortes geralmente com vales encaixados;
• T3 - áreas de relevo geralmente convexo, pouco movimentado, com declives suaves ou pouco acentuados. Em razão dos vales assimétricos tal unidade foi dividida em duas sub-unidades: T3a- sob vertentes mais extensas e homogêneas e T3b- vertentes mais curtas com algumas irregularidades;
• TP - áreas de terraços e planícies;
• AR - áreas sobre predomínio de afloramentos rochosos.
Após a fotointerpretação, as unidades de relevo mapeadas foram digitalizadas usando o software CorelDraw-10, gerando o mapa fisiográfico do serviço, que recebeu mais dois itens, sendo um oriundo de mapas geológicos na escala de 1:25000, onde constam às áreas sob domínio de rochas básicas e metabásicas e o outro das curvas de nível eqüidistantes 50m uma das outras conforme o padrão inerente às cartas topográficas em escalas de 1:100000.
A etapa seguinte, constitui-se de um segundo trabalho de campo, com o objetivo de descrição e coleta de amostras de solos conforme Lemos e Santos(2002).
A metodologia proposta por Lemos e Santos, foi aplicada a todas unidades de relevo mapeadas de forma repetitiva no cenário de estudo, na qual poderiam ser correlacionadas a algum tipo de solo específico. A metodologia de prospecção seguida foi o método de investigação ao longo de toposseqüências, conforme EMPRAPA(1995), realizando-se o levantamento topográfico com uso de balizas e clinômetros para as vertentes que foram escolhidas durante esta etapa de campo como sendo representativas para cada unidade de mapeamento.
Para estas vertentes, foram abertas trincheiras para descrição do perfil de solos. Com esta ação foi possível correlacionar os solos e as suas variâncias conforme a sua posição topográfica de alta, média e baixa vertente e ainda as partes de várzea e terraços, para as quais foram consideradas a dimensão espacial e a relação de distância para os cursos d'água.
As trincheiras foram abertas levando em consideração a forma de acesso, buscando formar uma heterogeneidade expressiva da bacia, sem contudo concentrar as trincheiras em uma área específica. Esta heterogeneidade foi alcançada com a descrição de 32 perfis de solos realizados em trincheiras, voçorocas, e cortes de estrada, que foram catalogadas com registro de suas coordenadas geográficas com o uso de GPS. Com a abertura destes perfis foi possível alcançar o nível de detalhamento desejado, mantendo-se assim uma boa densidade de observação.
Após a etapa de campo, as amostras de solos, foram encaminhadas para os seguintes laboratórios: EMBRAPA - para análises químicas e de fertilidade; no laboratório de Sedimentologia e Geomorfologia da UFMG, foi analisado os dados granulométricos, pH em H2O e em KCl.
Com os dados das fichas de campo, de laboratório e com o uso do mapa fisiográfico (Figura 3) da área, a etapa seguinte será a união e a interpretação das informações balizadas nos critérios da EMBRAPA(1999), afim de gerar o mapa final do levantamento pedológico e o estudo de perfis topográficos com a inserção da disposição dos solos ao longo dos mesmo, buscando melhor compreender a relação solo X Geomorfologia da bacia do Ribeirão Chiqueiro.
 

Figura 3: Mapa Fisigráfico das porções Leste e Sul da Bacia do Ribeirão Chiqueiro.
 


RESULTADOS PARCIAIS


Análise das vertentes agrupadas por tipo de unidades fisiográficas.
Unidade Fisiográfica – Padrão T1
Áreas associadas à Formação Sopa Brumadinho, sobre relevo plano a suavemente ondulado com desníveis pequenos. Para esse ambiente, selecionou-se as vertentes 2 e 3 .
O transecto realizado ao longo da vertente 3, seguiu um sentido Oeste-Sudoeste para Leste-Nordeste, já o transecto da vertente 2, segue o sentido Norte-Noroeste para Sul-Sudeste. Com estes transectos, foi possível constatar que as vertentes possuem declividade em torno de 3,49%, atingindo o máximo na vertente 2 de 6,49% e na vertente 3 de 8,75%.
Em campo, os solos destas vertentes foram classificados sob domínio de Latossolo Vermelho-Amarelo. Entretanto, na vertente 3 encontrou-se Cambissolo na porção baixa, onde a uma profundidade de 55-100cm foram encontradas concreções ferruginosas subrejacentes ao horizonte C. Os Latossolos desta vertente são muito semelhantes, no que se refere à caracterização morfológica, diferenciado-se apenas na coloração, vermelha no topo gradando para amarela em direção à base.
Na vertente 2, o que chama a atenção é a menor profundidade dos horizontes A e AB no Latossolo da baixa vertente, o que é justificado pela maior erosão associada ao aumento da declividade no local.
Unidade Fisiográfica – Padrão T3a
Embora possuam padrão fisiográfico igual, a constituição dos solos das duas vertentes selecionadas para estudo, é bastante diferente em termos geológicos.
O transecto realizado na vertente 1, como parte representativa da porção leste da bacia, demonstra a existência de 2 compartimentos, sendo, o primeiro na baixa vertente sob domínio da Formação Sopa Brumadinho onde ocorrem quartzitos com seixos e metaconglomerados polimíticos, que originam Neossolo Litólico. O segundo compartimento que é composto pelas porções de média e alta vertente, ocorre sobre filitos e quartzitos micácios originando solos do tipo Cambissolo.
O transecto realizado na vertente 8 é considerado como padrão representativo para a porção sul. Esta vertente é composta por 2 compartimentos, sobre o embasamento granítico de Gouveia. No primeiro compartimento que se encontra no domínio da baixa vertente ocorre o Cambissolo, em relevo de maior declividade. Nesse local encontra-se na direção marginal do curso d’água uma voçoroca bem desenvolvida. O solo do segundo compartimento é classificado como Latossolo Vermelho-Amarelo com diferenças de horizontes AB e um horizonte Bw1 mais profundo nos domínios do perfil 3, o que justifica-se pelo fato do topo possuir uma declividade mais suave do que a região de ocorrência do perfil 2.
Unidade Fisiográfica – Padrão T3b
Em ambiente de vertente curta pouco movimentada, mas apresentando irregularidade, foram realizados os estudos de duas vertentes que diferenciam-se com relação a estrutura geológica.
O transecto da vertente 4 ficou como padrão representativo da porção leste da bacia. Sob domínio da Formação Sopa Brumadinho com filitos e quartzitos micácios tem-se dois compartimentos. O primeiro com predomínio de Neossolo Litólico no domínio da média para baixa vertente que se apresenta com mata ciliar. Na alta vertente, realizou-se a análise de perfil onde, constatou a existência de um solo pouco desenvolvido classificado como Cambissolo.
O transecto da vertente 6 demonstrou a existência de dois compartimentos, separados por um afloramento rochoso na média vertente onde, segundo o mapeamento geológico, ocorre dique da rochas metabásicas tardias pós-tectônicas responsáveis pela diferença do tipo de solo.
No primeiro compartimento é encontrado Cambissolo, comprovado por dois perfis que se diferenciam apenas na espessura do horizonte A. No perfil 1, a grande espessura do horizonte A se dá por aporte de material carregado a partir da média vertente.
O Latossolo Vermelho encontrado no segundo compartimento é justificado pela menor declividade em relação ao restante da vertente.
Unidade Fisiográfica – Padrão T2
Essa unidade correspondente a relevo movimentado com grandes desnivelamentos onde predomina escarpas de declives muito fortes.
Na vertente de número 5 realizou-se um transecto com 4 perfis. Foram encontrados três unidades diferenciadas de solo: No primeiro compartimento foi encontrado um Neossolo Litólico em meio a afloramento rochoso. No segundo compartimento encontrou-se um Cambissolo com camada detrítica de aproximadamente 25cm sobrejacente ao horizonte Bi. Esta mesma camada detrítica é encontrada na área do terceiro compartimento abaixo do horizonte Bw2 só que, com uma espessura de 5cm em área de Latossolo Vermelho. Toda a vertente encontra-se sob domínio de rochas de natureza básica tardia-a pos-tectônica.
Na vertente 7 realizou-se um transecto com 2 perfis, em formação geológica pertencente ao grupo Pedro Pereira, onde foram coletadas amostras apenas do horizonte A com presença de seixos arredondados, angulosos e subangulosos. Com base no atual sistema de classificação de solos Brasileiros, o baixíssimo grau de desenvolvimento deste solo permitiu a sua classificação como Neossolo Regolítico.
Unidade Fisiográfica – Padrão TP
Para este padrão de unidade foram relacionados 3 terraços. Um terraço corresponde às margens do Córrego da Lagoa na porção norte da vertente onde foram descritos dois perfis, sendo um na borda do curso d’água e outro afastado 90m do primeiro.
O segundo terraço, encontra-se também na porção leste, sendo um terraço curto de aproximadamente 60m de comprimento, onde foi descrito um perfil na margem esquerda do Ribeirão Datas em posição de margem oposta à vertente 3. A descrição do perfil possibilitou classificar o solo deste terraço como Gleissolo.
O terceiro terraço analisado é continuo a vertente 6 na margem esquerda do Ribeirão Chiqueiro, onde foi realizada a análise de 2 perfis.
Os solos dos terraços 1 e 3 foram classificados como Gleissolos nas bordas marginais dos cursos d’água e Neossolos Flúvicos quando mais afastados da curso d’água.
Cabe destacar a existência de uma área isolada ao longo da vertente 4 onde foi encontrado um Organossolo. Esta ocorrência é apenas pontual, justificada pela proximidade da rocha e por aporte de material orgânico da área de sua ocorrência.

CONCLUSÕES


Com base nas análises das toposseqüências realizadas ao longo das vertentes estudadas, pode-se presumir que os solos da porção leste são menos evoluídos que os da porção sul, justificado pela concentração de material quartzoso.
As transeções estudadas demonstram claramente a existência de relação do Sistema Pedológico com as estruturas de relevo que são influenciadas pela litologia.
Na porção Leste, em unidades fisiográficas com relevo plano a suave ondulado, predomina a ocorrência de Latossolos Vermelho-Amarelos pouco desenvolvidos ao longo de toda e qualquer vertente. No entanto, é possível a ocorrência de Cambissolos nas áreas de baixa vertente. Nas unidades fisiográficas em áreas de relevo geralmente convexo, pouco movimentado, mas com possíveis irregularidades, predominam Cambissolo em alta e média vertente, seguidos de Neossolos Litólicos nas áreas de baixa vertente. Nas unidades com relevo movimentado, os Neossolos Litólicos predominam na baixa vertente; nas áreas de média vertente predominam Cambissolos. Já nas áreas de alta vertente, encontra-se Latossolos Vermelhos sob influência de rochas metabásicas.
Os solos desta Região encontram-se sob domínio da Formação Sopa Brumadinho, onde predomina filitos e principalmente quartzitos, que dão a porção Leste do sistema pedológico da bacia do Ribeirão Chiqueiro características de solos jovens que detêm um grau de intemperismo mais lento por parte dos quartzitos.
A porção sul é dominada por dois padrões de unidades fisiográficas, o que proporciona a esta região da bacia hidrográfica a ocorrência de solos jovens e também de solos mais evoluídos.
As áreas onde ocorrem relevos geralmente convexo, pouco movimentado e com algumas irregularidades, são responsáveis pelos solos mais desenvolvidos da porção, predominando Latossolos Vermelho-Amarelos, que variam em profundidade em razão do aumento de declividade, o que permite também a ocorrência de Cambissolos.
As áreas de relevo movimentado é dominada por solos pouco desenvolvidos em todas as posições de vertentes. As vertentes geralmente encontram-se associadas a Formação Pedro Pereira, onde ocorrem clorita xistos com variações de quartzo, permitindo a ocorrência de Neossolos Regoliticos e Neossolos Litólicos.
As áreas com planícies e terraços possuem o mesmo padrão para ambas as porções, sendo que os solos da porção sul, são mais espessos em razões dos cursos d’água terem calhas mais abertas, o que favorece a concentração de sedimentos. Os solos desta unidade fisiográfica ficaram compreendidos como Gleissolos nas bordas marginais dos cursos d’água e Neossolos Flúvicos a medida que se afasta do curso d’água em direção a base das vertentes.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

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