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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

APLICAÇÃO DO SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO DE ROSGEN NOS CÓRREGOS DE MARECHAL CÂNDIDO RONDON (PR)

 

 

 

 

VALDIR ROHENKOHL valdirgeo@yahoo.com.br

Acadêmico do Curso de Geografia/Bolsista PIBIC/Unioeste/PRPPG

OSCAR V. Q. FERNANDEZ fernandez@unioeste.br
Universidade Estadual do Oeste do Paraná- Colegiado de Geografia





Eixo: 3. Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo: 3.4 Aplicações temáticas em estudos de casos



 

 

 

INTRODUÇÃO

A geometria dos canais fluviais é resultante das relações entre as descargas liquida e sólidas fornecidas pela bacia hidrográfica e a resistência à erosão dos materiais que compõe o leito e as margens dos canais. Segundo Leopold et al. (1964) são oito as principais variáveis que influenciam nos ajustes morfológicos e padrão dos canais, sendo elas, profundidade do canal, largura, velocidade do fluxo, carga e tamanho dos sedimentos, declividade do canal, descarga de sedimentos, e irregularidades do leito. Caso haja qualquer mudança em uma dessas variáveis, se processará um novo ajuste das formas e dinâmica do canal, até um novo ponto de equilíbrio. Por tanto, o monitoramento das condições físicas e biológicas deste ambiente serve como indicador do efeito das alterações, principalmente de origem antrópica, produzidas na bacia.
A classificação de canais possibilita a extrapolação de dados regionais, redução das feições em estudo em unidades discretas, num completo monitoramento, ou mesmo na restauração desses ambientes, tornando possível a correlação de dados referentes às diversas formas de ocupação da bacia e das mais diversas áreas da ciência que tomam esses ambientes como objeto de análise em suas pesquisas. São inúmeras as classificações morfológicas de canais fluviais propostas por geomorfólogos e engenheiros. Trabalhos que versam sobre revisões bibliográficas sobre a classificação de sistemas fluviais foram publicados por Naiman et al. (1992), Downs (1995), Thorne (1997), Goodwin (1999) entre outros.

OBJETIVO E CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

O objetivo do trabalho é relatar a aplicação do sistema de classificação de Rosgen nos cursos fluviais de primeira ordem que drenam a área urbana e rural de Marechal Cândido Rondon região oeste do Paraná. O substrato rochoso é constituído por rochas basálticas da Formação Serra Geral de idade eojurassica-neocretácea (Rocha-Campos et al., 1998). O clima da região é do tipo Cfa (classificação climática de Köppen), subtropical, úmido, mesotérmico, com médias anuais de precipitações em torno de 1.600 a 1.700 mm (IAPAR, 1994).
A área urbana do município de Marechal Cândido Rondon esta sobre o divisor das águas do Arroio Iguaçu e do Arroio Fundo, ambos afluentes do rio Paraná. As informações utilizadas para a classificação dos canais foram coletadas em seis córregos que drenam a área urbana e rural de Marechal C. Rondon. A seguir são citados os códigos dos pontos e os respectivos córregos: Guar1 e Guar2 (córrego Guará), Bon1 e Bon2 (córrego Bonito), Mat1 (córrego Matilde-cue), Bor1 (córrego Borboleta), Ape1 (córrego Apepú) e Per1 (córrego Peroba). Em todos os pontos, foram implantadas seções transversais permanentes que consistem na instalação de estacas de madeira ou de concreto na superfície da margem nos extremos da linha da seção transversal. As estacas servem para fixar cabos de aço a partir dos quais são levantados perfis detalhados (Fernandez et al., 2001).

METODOLOGIA

Rosgen (1994) propôs uma classificação de canais fluviais considerando parâmetros geométricos e sedimentológicos. A classificação de Rosgen se baseia em variáveis geométricas dos canais e em características texturais do sedimento de fundo. Rosgen classifica os canais fluviais em oito classes: A, G, F, B, E, C (para padrões unicanal) e D, DA (para padrões multicanal). O autor utiliza o nível de vazão plena como plano referencial nas medições dos parâmetros físicos dos canais. Este nível representa a vazão que preenche na medida certa o canal fluvial antes de extravasar em direção à planície de inundação (Leopold & Maddock, 1953). Após a identificação do nível de margens plenas procede-se a medição das variáveis geométricas necessárias para a classificação.
As variáveis utilizadas na classificação são as seguintes:
Grau de entalhamento (GE): este parâmetro define a magnitude do entalhamento do canal na planície aluvial. A relação de entalhamento usado por Rosgen (1994) é definida pela relação entre a largura do nível de máxima do vale (Wm) e a largura do canal em nível de margens plenas (Wmp). A largura do vale no nível máximo é determinada duplicando o valor da profundidade do canal (dmp) medida em nível de vazão plena, na seção transversal de referência.
Relação largura/profundidade (L/P): é obtida relacionando a largura do canal em nível de margens plenas (Wmp) e a profundidade média no mesmo nível (dmp).
Indicie de Sinuosidade do canal (S): esta variável representa a relação entre o comprimento do canal e a distância do eixo do vale.
Gradiente do leito: este parâmetro representa a relação entre o comprimento do canal e a declividade do leito, em num trecho do canal, cujo comprimento deve oscilar entre 20 e 30 vezes a largura do canal, em nível de margens plenas.
As variáveis geométricas dos canais são obtidas utilizando técnica de nivelamento geométrico. Na análise granulométrica dos sedimentos foram utilizadas as seguintes técnicas: peneiramento convencional e a técnica de contagem de seixos Wolman (1954).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Dentre os oito pontos estabelecidos nos córregos de primeira e segunda ordem, somente três foram classificados convenientemente pelo sistema de Rosgen. Os valores das variáveis morfológicas e sedimentológicas destes pontos estão colocados no Quadro 1. Dois pontos foram classificados como do tipo E, que se caracterizam por possuir canais com baixo gradiente (<0,02), padrão meândrico (S=>1,5), com seqüência de soleira e depressão, baixa relação largura/profundidade (<12). Os canais do tipo G são encaixados com voçorocamento, seqüência de degrau-depressão, baixa relação largura/profundidade (<12) e gradiente moderado (0,02-0,039). O valor número que acompanha os tipos de classificação obedecem a granulometria do material de fundo: o número 1 indica afloramento de rocha, o 2 matacoes, o 3 bloco (calhau), o 4 seixos, o 5 areia e o 6 materiais com mistura de silte e argila.
 

Ponto

GE

L/P

S

Gradiente do Leito (m/m)

Textura do sedimento de fundo

Tipo de canal

Guar 1

> 9,75

3,33

3,37

0,0076

Seixo

E4

Mat 1

2,44

2,57

1,54

0,0080

Seixo

E4

Ape 1

1,12

5,04

1,78

0,0058

Seixo

G4c

Quadro 1: Dados as variáveis adotadas por Rosgen (1994) referentes aos pontos estudados nas bacias hidrográficas de Marechal C. Rondon (PR).

 

Nos demais pontos, a classificação de Rosgen não pode ser aplicada. Os valores das variáveis geométricas, medidos em campo, não coincidem com os intervalos dos valores propostas pelo autor. Este problema será analisado numa comunicação ulterior. Tem que ser levado em conta, que a classificação de Rosgen foi proposta para aplicar em cursos fluviais de áreas temperadas, com precipitação moderada e com pouca alteração antrópica. Numa análise preliminar podem ser considerados os seguintes aspectos. As bacias hidrográficas estudadas na região de Marechal Cândido Rondon encontram-se profundamente modificadas.

REFRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOWN, P.W. (1995) River channel classification for channel management purpose. In: Changing River Channel (Gurnell, A. & Petts, G., Eds). p. 347-365.


FERNANDEZ, O. V.Q.; REBELATTO, G. & SANDER, C. (2001) Análise quantitativa de seções transversais em pequenos canais fluviais. Revista Brasileira de Geomorfologia, 2 (1): 85-92p.


GOODWIN, C.N. (1999) Fluvial classification: neanderthal necessity or needless normalcy. American Water Resources Association


IAPAR (Fundação Instituto Agronômico do Paraná) (1994). Cartas climáticas básicas do Estado do Paraná, Curitiba (PR), 49p.


LEOPOLD, L. & MADDOCK, T. Jr. (1953) The hydraulic geometry of stream channels and some physiographic implications. Professional Paper, United States Geological Survey, 252: 57p.


LEOPOLD, L.B.; WOLMAN, M.G. & MILLER, J.P. (1964) Fluvial processes in Geomorphology. San Francisco, Ed. Freeman, 522 p.


NAIMAN, R.J.; LONZARICH, D.G.; BEECHIE, T.J. & RALPH, S.C. (1992) General principles of classification and the assessment of conservation potential in rivers. In: Boon, P.J.; Carlow, P. & Petts, G.E. (Eds.) River Conservation and Management, John Wiley & Sons, Chichester, 93-123.


ROCHA-CAMPOS, A. C.; CORDANI, U.G.; KAWASHITA, K.; SONOKI, H.M. & SONOKI I.K. 1998. Age of the Parana Flood volcanis. In: Piccirilo, E.M. & Melfi, A.J. (Eds.) The Mezoic Flood Volcanis of the Parana Basin. Universidade de São Paulo, Instituto Agronômico e Geofísico, P. 1-15.


ROSGEN, D. (1994) A classification of natural rivers. Catena, 22: 169-199p.


THORNE, C.R. (1997) Channel types and morphological classification. In: Thorne, C.R.; Hey, R.D. & Newson, M.D. (Eds.) Applied Fluvial Geomorphology for River Engineering and Management. John Wiley & Sons, Chichester, 175-222.


WOLMAN, M.G. (1954) A method of sampling coarse bed material. American Geophysical Union, Transactions, 35 (6): 951-956.