Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA E O USO DOS RECURSOS HÍDRICOS EM ÁREAS DE GRANDES PROJETOS HIDROELÉTRICOS: O CASO DE TUCURUÍ(PA).




Paulo Alves de Melo majmelo1@yahoo.com.br;

Prof. Dr. Gilberto de Miranda Rocha gilrocha@ufpa.br;
Geraldo Fabrício P. De Almeida.



Universidade Federal do Pará – Departamento de Geografia
 

 


Palavras chaves: Sistema de Informação Geográfica (SIG), Recursos Hídricos, Usos.
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em Estudos de Casos






1-Introdução


O presente artigo visa contribuir para o entendimento da relação entre o uso e a geração da informação geográfica sobre os recursos hídricos na cidade de Tucuruí (Pa). Essa relação torna-se importante considerando dois aspectos do atual contexto histórico: a criação de sistema de informação para a regulação do uso múltiplo da água frente a determinação da Política Nacional dos Recursos Hídricos e, ao mesmo tempo, a crescente importância da informação para a gestão da água pelos diferentes níveis de governo.
Esta relação é justificada pela necessidade de se disponibilizar para o município os elementos técnicos para a gestão mais acertada do recurso água, visto que “a informação representa um fator essencial no projeto de sustentabilidade do desenvolvimento” (Albagli, 1995) e que hoje não basta apenas o conhecimento das potencialidades do território de uma maneira geral; faz-se, necessário, neste momento, condicionar a exploração aos limites que a natureza possui, pois como afirma Bertha Becker: “a crise ambiental, (...) se constituí como limite as formas tradicionais de produzir”.(2003)
A cidade de Tucuruí, localizada nas margens do rio Tocantins apresenta interesse particular nesta relação: trata-se de uma localidade que reconheceu amplas transformações na sua estrutura urbana e nas formas de apropriação e uso dos recursos hídricos dada a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí(1a. etapa entre 1975 a 1985 e 2a. etapa entre 1998 a 2001). Nesse sentido, esse trabalho procura subsidiar a gestão ambiental urbana através da geração de informações geográficas sobre as diferentes formas de uso da água: nesta primeira fase, dos igarapés Santos e Santana que cortam a cidade e são responsáveis pelo abastecimento de água da cidade e da orla do rio Tocantins que banha o sítio histórico da cidade.
 

2- A Informação geográfica: suporte a gestão dos recursos hídricos


Desde os anos 90, o desafio de grande parte das unidades federativas e dos governos instaurados tem sido o de organizar e ordenar o seu território. A gestão territorial compartilhada envolvendo os três níveis de governo – união, estados e municípios – apresenta-se assim como uma prática corrente. A promoção do desenvolvimento local em bases sustentáveis, desde então, aponta para a necessidade de aprofundar a produção de meios e instrumentos técnicos e políticos para tornar efetiva a ação do Estado no ordenamento territorial.
O controle e o monitoramento do crescimento e das mudanças no processo de ocupação e estruturação do território municipal, constituem, nesse sentido, grandes desafios à gestão pública local. Igualmente torna-se sobremaneira empresa de grande esforço a municipalidade empreender políticas que estimulem o desenvolvimento local em bases sustentáveis. Para controlar é necessário informação. A coleta de informações espaciais, na sua forma tradicional, é muito cara. É preciso, portanto, racionalizar os gastos para torná-los compatíveis às finanças públicas. Sem o monitoramento os cadastros ficam rapidamente desatualizados, defasando a arrecadação e ocupando as áreas de preservação, causando às cidades problemas de desorganização de seu território, baixa eficiência de suas ações e perda da qualidade ambiental.
Conforme Beker & Egler(1997) a finalidade última desses processos de intervenção é otimizar o uso do território e a integração das políticas públicas. No caso específico dos recursos hídricos a caracterização dos diferentes usos e a elaboração de planos de manejo das bacias hidrográficas constituem instrumentos indispensáveis a potencialização do uso adequado e sustentável do recurso água. O ordenamento do uso dos recursos hídricos, pode se efetivar a partir da utilização do Sistema de Informação Geográfica, o qual se configura com duas funcionalidades:
a) é um instrumento técnico de informação sobre o território, necessário para a ocupação racional e para o uso adequado da água. Provê uma informação integrada em uma base geográfica e classifica as bacias hidrográficas segundo suas potencialidades;
b)é um instrumento político de regulação do uso dos recursos hídricos e do território como um todo. Permite integrar as políticas públicas em uma base geográfica, descartando o convencional tratamento setorizado, acelerando o tempo de sua execução e de sua eficácia; e ao disponibilizar a informação, constitui um instrumento de negociação.
É no âmbito desses processos de intervenção e como suporte tecnológico de geração de informação geográfica para a gestão territorial que emerge a aplicação das tecnologias de geoprocessamento e da construção de sistemas de informações espaciais georeferenciadas do território municipal. Nos últimos cinco anos, temos observado um lento, porém expressivo, interesse de governos municipais pela implantação do Geoprocessamento em seus municípios. A implantação desta tecnologia, vem crescendo cada vez mais, expressando o interesse de administrações públicas municipais em conhecer o espaço geográfico onde atuam, e também gerenciá-lo de modo que os aspectos legais, tributários, econômicos e sociais, etc, sejam implantados e distribuídos de maneira justa e coerente, de modo a garantir uma qualidade de vida melhor à sua população.
As novas tecnologias de coleta e manuseio da informação espacial promovem mudanças significativas na gestão municipal pois subsidiam o processo de tomada de decisão com informações acuradas sobre o território. As tecnologias de Sensoriamento Remoto, GPS (Global Positioning System), Levantamentos Aerofotográficos e Geoprocessamento permitem a criação de Sistemas de Informações Geográficas (Sig – municipal), ambiente de respostas a perguntas que envolvem o fator localização e o arranjo espacial (da população, das atividades econômicas e dos recursos naturais) como variáveis primordiais. A característica básica destes sistemas é sua capacidade de associar as representações do mundo real, organizadas em planos sobreponíveis de informações, a bancos de dados alfanuméricos com seus atributos (Lobo,1998).
Hoje já é possível, portanto, através da tecnologia das imagens de satélites de alta resolução, coletar informações adequadas às necessidades do controle espacial dos municípios. Ou seja, através destas imagens de custo reduzido será possível identificar todas as transformações do espaço construído. É uma nova forma de coleta da informação utilizando alta tecnologia e que pode beneficiar os municípios, conduzindo a uma gestão territorial adequada e sustentável seja do ponto de vista do aproveitamento racional dos recursos contidos no território, da estruturação de informações municipais cadastrais, imobiliário e comercial eficientes e atualizados, uso do solo e etc.. Essa sistemática de atualização é forte aliada do sistema tradicional de fiscalização, com vistas a eliminar a inadimplência e a sonegação. O SIG - Municipal se caracteriza pela abrangência de integração e gerenciamento de informações das prefeituras municipais, envolvendo todos os tipos de dados: georeferenciados, textuais, imagens, entre outros. Um Sistema de Informação Geográfica voltado para o ordenamento territorial, oferece diversas possibilidades de incrementos à gestão municipal.


3- O Impacto da UHE/TUC na cidade de Tucuruí (PA) e suas implicações sobre o uso dos recursos hídricos


Quando pensamos em Tucuruí nos vem de imediato a idéia de que a água neste município é usada apenas para geração de energia (Rocha et alli, 2002, p.27), dada a implantação da UHE Tucuruí. As usinas hidrelétricas terminam por priorizar o uso da água para a geração de energia elétrica onde se instalam. Ou conforme Vainer e Araújo(1992), “A natureza e lógica dos grandes aproveitamentos hidroelétricos não deixam dúvidas: trata-se de explorar determinados recursos naturais e espaços, mobilizar certos território para uma finalidade específica – produção de eletricidade. Tudo que contraria ou escapa a este fim aparece como obstáculo...”.
Este foi, sem dúvida, o maior impacto sobre os recursos hídricos naquele município, mas os desdobramentos que se seguiram à construção da usina, como por exemplo o adensamento populacional na cidade e entorno concorreram para elevar a pressão sobre a água e para diversificar o uso da mesma(mapa 1 e 2).
O impacto da construção da UHE/TUC (Usina Hidrelétrica de Tucuruí) promovido sobre os recursos hídricos não ocorreu somente sobre o rio Tocantins e seus principais afluentes mas igualmente sobre todos aos pequenos cursos e principalmente os ligados as novas demandas de consumo doméstico. Além das obras ligadas a UHE também o “afluxo populacional ligado a obra – barrageiros e peões da obra, que foram atraídos pelas oportunidades de trabalho (...) ocasionou (...) elevado crescimento populacional: que pressionou os recursos hídricos.(op. cit.)
Quando iniciados os preparativos para a construção da usina hidrelétrica em 1973/74, o afluxo migratório nessa fase de pré-usina já apontava para mudanças significativas na dinâmica demográfica local. A construção do primeiro acampamento da empresa, a Vila Pioneira, aos poucos, dava sinais de mudanças, ainda que centradas no núcleo histórico. Desde o final da década de 60, Tucuruí já havia deixado de ser aquele entreposto comercial, dado que as reformas administrativas e institucionais daquele período redirecionaram os fluxos que ali se estabeleciam através do sistema flúvio-ferroviário que assegurava o escoamento da produção extrativista. Os armazéns de estocagem da castanha foram desmobilizados e a população local ressentia-se dos recursos e serviços que a circulação da castanha e os provindos da Estrada de Ferro Tocantins proporcionavam. As obras iniciais e o ainda incipiente afluxo populacional indicavam o início de um processo de revigoramento da cidade causando expectativas aos habitantes locais.
Entre 1973 e 1977, período de inicio e término das obras da Vila Pioneira, Tucuruí havia dobrado em termos de área urbana. Ao lado do velho e decadente núcleo, uma nova cidade havia sido construída e a circulação de mercadorias e de dinheiro já girava em torno dos trabalhos da Vila. Em 1979/80, época do pico da obra, o total de população existente no conjunto do espaço urbano planejado e no “livre”, perfazia cerca de 110.000 habitantes, um crescimento da ordem de 517% em relação a 1970. Destes, 55.000 habitantes em Tucuruí e 55.000 nos núcleos urbanos da Eletronorte. Se por um lado, a ocupação se dava de forma planejada nos quatro núcleos da Eletronorte (Vila Pioneira, Vilas Temporárias I e II e Vila Permanente), embora densamente habitados, por outro, a cidade de Tucuruí expandiu a sua malha urbana, quintuplicando em área com a expansão urbana. A essa altura o centro comercial e de serviços que anteriormente estava nas margens do rio Tocantins, no bairro da Matinha, é transferido para a parte mais elevada da cidade, que servira como campo de pouso de aeronaves. As chácaras e fazendas das imediações da cidade foram desapropriadas para formar o canteiro de obras, para a implantação das vilas da empresa e também do novo aeroporto.


Tabela1 – Evolução demográfica da sede do município de Tucuruí (1960 a 1991)

Ano Sede Municipal Município Densidade demográfica
1960 ¹ 3.369 5.788 1,13
1970 ¹ 5.549 9.936 1,94
1980 ¹ 27.209 61.319 11,97
1985 ² 110.000 148.000 14,2
1991 ¹ 55.000 81.635 12,2

Fonte:(1) censos demográficos do IBGE, 1970, 1980, 1991.
(2) Eletronorte 1988.

 

Ao seu redor, ao norte, a oeste e ao sul, a cidade, de forma “desordenada”, reproduzia bairros periféricos “espontâneos” (Santa Mônica, Paraíso, etc.). Grande parte das habitações e serviços desses “acampamentos”, induzidos pelo crescimento populacional, foi construída obedecendo aos critérios e às condições, geralmente precárias, dos migrantes. Não havia controle sobre a terra e as ocupações se multiplicavam. Isto deu a Tucuruí um traçado urbano irregular, tanto condicionado pelo processo de ocupação como pelas características morfológicas do sítio urbano: declives acentuados intercruzados de vales úmidos que serviam de esgotos a “céu aberto”.
O crescimento urbano “desordenado”, sem controle, já que a Prefeitura ficara praticamente inerte perante à velocidade das transformações, ensejou ações coordenadas entre a Prefeitura, a Eletronorte e o Governo do Estado, a partir de 1982, cujo objetivo era a busca de um “ordenamento” do processo de ocupação do espaço urbano: arruamento, asfaltamento e construção de praças.
Através de convênios estabelecidos com o Governo do Estado - Companhia de Habitação do Estado do Pará (COHAB) -, a Prefeitura procurou organizar os novos bairros e construir outros, como o da COHAB, nas proximidades do novo centro comercial. Para abrigar os migrantes que não cessavam de chegar, o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT) passou igualmente a atuar na periferia da cidade, não somente disciplinando o processo de ocupação, como criando assentamentos urbanos, como o hoje bairro do Caraipé, mais conhecido como Getat. Praticamente, 65% da malha urbana da cidade de Tucuruí foi construída nesse período, que corresponde à fase de construção da UHE/TUC.
O espaço urbano se reproduzia, igualmente, e literalmente, nos quintais, dado o volume populacional e o déficit crescente de moradias (30 % aproximadamente no período) tanto nas vilas planejadas como na cidade de Tucuruí. Novos quartos e alojamentos foram construídos, ampliando a área residencial tanto no interior das habitações como nas áreas reservadas nos fundos das habitações. Invariavelmente, cada habitação preexistente, caracterizava-se, em simultâneo, como residência e dormitório, espécie de pensão ou pensionato.
O “inchaço” populacional provocou uma pressão sobre os precários equipamentos de saúde e outros serviços públicos criando uma situação ambientalmente degradante. A grande procura por esses serviços, dado o adensamento populacional do núcleo histórico e a ampliação da malha urbana, sobrecarregaram os serviços de adução de água potável e de coleta de lixo; de forma que a condição sócio-ambiental urbana criada expressava um quadro degradante, com padrões de habitabilidade propício a difusão de doenças.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, no período de construção, era comum o caso de diarréias, vômitos e de doenças infecto-contagiosas advindos não somente das condições das habitações, mas principalmente da má qualidade da água. Um ciclo de doenças se formava, dado que grande parte da água consumida provinha diretamente do Tocantins e que servia, em simultâneo, como receptor dos detritos e dos esgotos a “céu aberto” que compunha a rede de drenagem da cidade (igarapés Santos e Santana). Igualmente, foi sobrecarregado o sistema de comunicações e de abastecimento de energia. Este último, à época, provindo de uma estação de termoeletricidade. A energia gerada pela Eletronorte destinava-se à construção da usina hidrelétrica e à iluminação dos seus núcleos urbanos, ficando a cidade dependente da antiga estação de termoeletricidade que já não atendia com facilidade aos habitantes do núcleo histórico.



Cidade de Tucuruí
 

Se a demanda habitacional era superior em muito à oferta – fato este que acarretou a expansão urbana e a duplicação de residências em espaços restritos, dando origem a cortiços e ao surgimento de periferias - a inserção da força de trabalho, entre 1980 e 1985, parecia indicar trabalho para todos. De 10 (dez) pessoas que chegavam, apenas uma alcançava a sua meta, a de ser incorporada à empresa estatal e às empreiteiras (Pinto,1977).
Esse volume de mão-de-obra absorvida pela construção civil encontra explicação na própria obra, na construção da usina hidrelétrica e dos núcleos urbanos de apoio e, igualmente, na cidade de Tucuruí, porque se constituía um espaço em construção, demandando serviços de barrageiros, pedreiros, serventes, etc. Além do montante de 13.181 operários, no pico da obra chegou-se a mobilizar cerca de 30.000 operários. Destes, dependiam de seus rendimentos um número bastante superior. Por outro lado, essa concentração de operários e o crescimento populacional estimularam outras atividades ligadas à prestação de serviços e ao comércio de mercadorias, seja formal, seja informal: lojas, clínicas particulares, ambulatórios, dormitórios, pequenos hotéis, prostíbulos, pequenos restaurantes. Essas atividades se disseminavam nas proximidades do canteiro de obras e no velho centro comercial, no bairro da Matinha (núcleo histórico de Tucuruí), e no novo, formado ao longo da avenida Lauro Sodré, antigo campo de pouso (aeroporto) da cidade.
Uma parte substancial da população da cidade, nesse período, entre 1980 e 1985, dedicava-se a atividades informais, o subemprego. Os ambulantes vendiam os mais diferenciados produtos, desde alimentação a artigos de consumo doméstico, bijuterias, roupas, etc, concorrendo com o setor formal. A cidade viveu, assim, um período de dinamismo econômico, com circulação de dinheiro e mercadorias e prestação de serviços, que somente se tornou possível dada à construção da usina.
Inegavelmente essa pressão populacional sobre o espaço urbano da cidade terminou por contribuir para a ampliação da demanda por água potável e, ao mesmo tempo, por diversificar as formas de apropriação e uso dos recursos hídricos do sítio urbano. Os igarapés Santos e Santana transformaram-se nos principais cursos d’água para o abastecimento urbano como para o despejo dos resíduos domésticos da cidade.


4-O uso atual da água na cidade de Tucuruí


Podemos afirmar que um dos principais impactos sobre o uso da água em Tucuruí após a construção da barragem, é a tendência a privatização das águas do Rio Tocantins para a geração de energia elétrica e também a passagem gradativa da água de um bem social (utilizada por todos os elementos sociais do lugar) para um recurso, quantificável e metros cúbicos e direcionado quase que exclusivamente para movimentar as turbinas daquele empreendimento. Quando nos transportamos para o interior da cidade e nos debruçamos sobre os igarapés Santos e Santana que cortam o sítio urbano e são responsáveis pelo abastecimento urbano (mapa n. 2) verificamos que o processo de produção do espaço urbano e o conseqüente adensamento populacional comprometeram em substancia a qualidade da água e a própria existência dos ambientes drenados por esses igarapés¹ .



População atendida pelo Sistema de Abastecimento de Água - Cidade de Tucurí, 1999 a 2003
 

A cidade de Tucuruí possui em seu interior apenas duas bacias hidrográficas, a do Igarapé Santos e do Igarapé Santana. Estas bacias (mapa n. 1) são responsáveis pelo abastecimento de toda a cidade, salvo alguns pontos isolados abastecidos por poços. Além do uso para o abastecimento de água podemos identificar as seguintes classes de uso considerando as duas bacias hidrográficas (igarapés Santos e Igarapé Santana):


i) Captação para tratamento;
ii) Uso agropecuário;
iii) Consumo in natura feito pela população não atendida pelo sistema de abastecimento;
iv) Ocupação desordenada das margens (e até mesmo dos leitos dos igarapés);
v) Uso privado dos igarapés
vi) Lançamento de efluentes.
vii) Lazer


A utilização da água nesses igarapés e na orla é muito variada, a partir de uma observação e do georefenciamento das áreas de uso conseguimos identificar seis diferentes classes de usos enumeradas acima.

Igarapé Santos

Trecho: a montante do setor de captação. localizado no km 04 da rodovia estadual Transcametá de acordo com as seguintes coordenadas: S 03° 44’ 29” W 49° 41’ 43” a água é basicamente utilizada para fins agropecuários.

 

Trecho: Bairro Getat. No ponto S 03°44’ 39” W 49°41’08” o igarapé é utilizado para fins domésticos, agropecuários lazer e irrigação.
Trecho: Bairro Colorado. No ponto S 03° 45’12” W49°40’50” água do igarapé é utilizada in natura fins domésticos pelos trabalhadores de uma serraria localizada no mesmo ponto na margem direita do igarapé.
Trecho: Bairro Terra-prometida. Na rua Alcobaça do bairro em questão identificamos a existência de uma horticultura que é irrigada pelas águas do igarapé. Na margem direita percebemos um grande número de residências, cujo o limite dos terrenos é o próprio igarapé, desprovidas do qualquer serviço de saneamento, transformando o igarapé no lugar preferencial para o lançamento de efluentes. Tal fato é verificado também nas ruas 2 de Agosto e Wernem Dom Cornélio.
Trecho: Bairro Santa Izabel. No ponto com as seguintes coordenadas S 03°45’35’ W 49°40’23”referente a Rua “F” do bairro, devido ao lançamento de efluentes o igarapé já se encontra em avançado estágio de assoreamento e poluição sendo possível a visualização de uma quantidade razoável de lixo doméstico. Na Rua “G” S 03°45’36” W 49°40’20”, o igarapé sofreu uma grave intervenção antrópica, pois há ali a criação de gado suíno no leito do Igarapé contaminando em definitivo as águas até a foz.
Trecho: Bairro Jaqueira. Nas coordenadas S 03°45’47” W 49°40’10” mais precisamente na Rua Félix identificamos a primeira hidrelétrica projetada para a cidade, hoje conhecida como hidráulica.
Orla do Rio Tocantins
No bairro do Mangal onde se inicia a orla do Rio Tocantins, observamos diversor usos da água, como por exemplo: o lazer, pesca, um ancoradouro e uso doméstico. Neste ponto S 03°45’06” W 49°39’34”, foi identificado também a existência de um estaleiro, marcando a permanência de uma atividade outrora muito dinâmica
Igarapé Santana
Assim como o Igarapé Santos o Igarapé Santana percorre extensa área já desmatada, atravessando várias propriedades rurais com pecuária extensiva. Entretanto o aumento da densidade populacional nas áreas a montante da captação e o desenvolvimento do processo agrícola é ma questão somente de tempo. Este setor de captação (S 03°46’44” W 49°41’09”) é recente foi construído para atender as novas demandas de água da população urbana. No ponto S 03°46’19” W 49°40’53”, há a existência de uma piscicultura, sendo que a água utilizada e de poços artesianos.
Trecho: bairro Paravoá – Trav. Castanheira. No ponto S 03°46’19” W 49°40’51” o uso da água no igarapé é para o lazer e uso doméstico. S 03°46’20” W 49°40’52”, identificamos uma pequena nascente de onde a população capta a água diretamente sem tratamento algum visando fins domésticos.



Mapa temático:uso da água em Tucuruí
 

Trecho: Ocupação dos palmares. No ponto S 03°46’08” W 49°40’39” o igarapé recebe uso domestico e a partir desse ponto devido ao processo desordenado de ocupação o igarapé passa a apresentar características de um esgoto, além de se evidenciar o uso privado do mesmo, visto que as cercas dos imóveis adentram o leito do igarapé.
Trecho: Bairro Santa Izabel – Rua Acre. No ponto S 03°46’03” W 49°40’26” o igarapé apresenta-se como uma verdadeira cloaca, fato interessante é que na avenida 7 de setembro no trecho conhecido como “buraco da gia” além do igarapé ser utilizado para lançamento de efluentes serve ainda como cemitério de carros.

5-Considerações


Observamos que o processo de produção do espaço urbano de Tucuruí ao longo da construção da UHE/TUC complexificou sobremaneira as formas de apropriação e uso dos recursos da cidade. O uso da água na cidade de Tucuruí apresenta problemas que comprometem a qualidade da água consumida pela população. A gestão dos recursos hídricos para além de demandar o reconhecimento do uso múltiplo dos recursos hídricos pressupõem ações capazes de redimensionar os usos como forma de assegurar o abastecimento urbano e a qualidade da água dos igarapés. Urge, nesse contexto, que o poder público, em suas ações em vistas o ordenamento do espaço urbano assegurar a constituição de um comitê para a gestão da água nas bacias hidrográficas que se constituíram em mananciais para o abastecimento da cidade. Além desta medida o comitê de bacia, como assegura a Lei Federal nº 9.433 de 08 de janeiro 1997 em seu Art. 38 inciso VI, poderia “estabelecer os mecanismos de cobrança pelo o uso de recursos hídricos e sugerir os valores a serem cobrados”, como ainda aprovar ou desaprovar obras relacionadas aos igarapés, pois a Prefeitura do Município pretende canalizá-los em seu trajeto urbano até a foz. Determinar usos prioritários e inibir usos abusivos deve ser atitudes urgentes para o disciplinamento do uso dos recursos hídricos na cidade.

 

 

 

6-Notas

------------------------------

¹Estas afirmações são referentes apenas aos igarapés, visto que, o rio Tocantins pelo seu próprio volume d’água tem uma capacidade de recuperação diferenciada.
 


7-Referências Bibliográficas:


ALBAGLI, S. Da biodiversidade à biotecnologia: a nova fronteira da informação. In: Revista Ciência da Informação, Brasília, v.27, nº1, p.7-10, Jan. /abr.1998.


BECKER, B. K. Informação e Território. In: Revista Ciência Hoje n. 117 v.20, 2003.


BECKER, Bertha K. Inserção da Amazônia na geopolítica da água. In: Seminário Internacional Problemática do uso local e global da água na Amazônia. Documentos Básicos. Belém: UNESCO/UFPA/NAEA, 2003.


BRASIL, Ivo. Gestão dos Recursos hídricos como elemento de transformação da sociedade amazônica. In: Seminário Internacional Problemática do uso local e global da água na Amazônia. Documentos Básicos. Belém: UNESCO/UFPA/NAEA, 2003


COSTA, Antonio J. F. Gestão municipal da água. In: Governo e Sociedade, nº. 108. São Paulo: Pólis – ILDES FES, 1998.


DAVIDOVICH, Fany. Gestão do território, um tema em questão. Revista Brasileira de Geografia, 53(3): 7-31. Rio de Janeiro: IBGE,1991


DECANINI, Mônica M. S. SIG no planejamento de trilhas no Parque Estadual de Campos de Jordão. In: Revista Brasileira de Cartografia, nº 53, dez. Rio de Janeiro: SBC, 2001.


MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Política Nacional de Recursos Hídricos. Legislação Básica. Brasília: MMA / Secretária de Recursos Hídricos, 2002.


RAFFESTIN, C. Por uma Geografia do Poder.São Paulo: Ática, 1993.


RAMOS, E. G. A UHE- Tucuruí e seus impactos sócio-ambientais: um estudo nas áreas ribeirinhas do município de Baião (Baixo Tocantins). Trabalho de conclusão de curso (Lic./Bach. em Geografia,)- Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Pará : Santarém, 2001.


RODRIGUES, P. H. e VILLAÇA, S. Sistemas Municipais de Informações: subsídios para utilização de Geoprocessamento. In: Fator Gis: A Revista do Geoprocessamento. Ano 3- n.9- Abril/Maio/Junho, 1995. p. 35-39.


ROCHA, Gilberto M. e GOMES, Claudemir B. A construção da Usina Hidrelétrica e as transformações espaciais na região de Tucuruí. In: TRINDADE JR., Saint-Clair C. e ROCHA, Gilberto M. Cidade e empresa na Amazônia: gestão do território e desenvolvimento local. Belém: Paka-Tatu, 2002.


ROCHA, Gilberto M. Informação geográfica e a gestão da cidade de Tucuruí (PA). In: Anais do Simpósio Amazônia, Cidades e Geopolítica das Águas. Belém: NAEA/UFPA,2003.


____________. A produção da informação geográfica para gestão municipal da água: o emprego da tecnologia SIG na caracterização e monitoramento do uso múltiplo dos recursos hídricos na cidade de Tucuruí- Pa. Belém: Projeto de Pesquisa, 2002.


SANTOS, M. O meio técnico-científico e a urbanização no Brasil. In: Espaço e Debates: revista de Estudos Regionais e Urbanos. São Paulo: Ano VIII n.25, 1988. p. 58-62.


___________. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo:
Hucitec, 1996.


ZAPATA, Tânia, et al. Gestão participativa para o desenvolvimento local. Recife: BNDES/PNUD, 2001.