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E3-3.4T347

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

MORFOTECTÔNICA E SUA RELAÇÃO COM A PEDOGÊNESE DIFERENCIADA EM DEPÓSITOS ALUVIAIS NA BACIA DO RIO BONITO, PETRÓPOLIS, RJ
 

 

 

 

Laura Delgado Mendes mendesld@bol.com.br12;

Ambrosina Helena Ferreira Gontijo 34;

Neusa Maria Costa Mafra 2;

Nelson Ferreira Fernandes 5.

 

 

 

1 UFRJ/IGEO/Programa de Pós-Graduação em Geografia

2 UERJ/IGEO/GEOG/GISP (Grupo de Investigação Solos-Paisagem)

3 UERJ/GEOL/TEKTOS (Grupo de Pesquisa em Geotectônica)

 4 UFRJ/IGEO/NEQUAT (Grupo de Estudos do Quaternário e Tecnógeno)

5 UFRJ/IGEO/GEOG/Laboratório de Pedologia

 

 

 

 

Palavras-chave: morfotectônica, depósitos aluviais, pedogênese
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4:Aplicações temáticas em estudos de casos

 

 

Introdução

A compreensão da relação entre a evolução do relevo e o condicionamento tectônico, tanto em domínios de bordas de placa ativas como intraplaca, tem estimulado o desenvolvimento de estudos, que buscam, a partir da análise de drenagem, de feições de relevo e da distribuição de áreas de deposição de sedimentos, um entendimento a respeito da influência da tectônica na evolução do relevo (OLLIER, 1981; HASUI, 1990; BURBANK & ANDERSON, 2001).
O reconhecimento de que os solos formam parte essencial entre todos os elementos da paisagem e todas as superfícies geomórficas promoveu uma decisiva estruturação para os estudos ligados à gênese de solos e para os estudos associados à evolução e/ou estabilidade dos elementos da paisagem, estando a história de evolução da paisagem intimamente relacionada com a história de desenvolvimento do solo (McFADDEN & KUEPFER (1990). Dessa forma, os estudos que envolvem solos-geomorfologia buscam o entendimento acerca dos materiais de origem dos solos da área; a definição das superfícies geomórficas no tempo, indicadoras de idades relativas dos solos; e a correlação entre as propriedades do solo e a paisagem, sendo destacado o papel da topografia no controle da distribuição dos solos e das propriedades que apresentam (BIRKELAND et al., 1981; 1984; GERRARD, 1993; 1995).
A partir desta abordagem, este trabalho objetiva analisar as condições topográficas, hidrológicas e tectônicas que atuaram e atuam no controle dos processos de morfogênese e pedogênese, identificando os processos pedogenéticos diferenciados em depósitos aluviais. Pretende-se demonstrar que as condições de desenvolvimento de solos, formados em situações topográficas distintas (zonas de depressão, terraços fluviais e alvéolos), associadas à estruturação morfotectônica da área podem ser responsáveis pelas diferenças no processo de evolução dos solos hoje observadas.
A área de estudo é a bacia do rio Bonito (sub-bacia do rio Piabanha), localizada no município de Petrópolis, RJ, que corresponde a uma área de aproximadamente 60 Km². O município de Petrópolis localiza-se no Estado do Rio de Janeiro, entre os paralelos de 22? e 23? S e os meridianos de 43? e 44? W, limitando-se ao norte com São José do Vale do rio Preto, a leste com Teresópolis e Magé, ao sul com Duque de Caxias e Miguel Pereira e a oeste com Paty do Alferes, Paraíba do Sul e Areal. Situa-se no Domínio Morfoestrutural do Planalto Atlântico, na Região do Planalto e Escarpas da Serra dos Órgãos, posicionada entre as Unidades Geomorfológicas de colinas/morros e maciços costeiros e Alinhamento de cristas Paraíba do Sul (SILVA, 2002). A bacia do rio Bonito situa-se no compartimento Degraus e/ou serras elevados e/ou escarpados (op.cit.). A geomorfologia é caracterizada pelos degraus da Serra dos Órgãos, que constituem os divisores de água da bacia, sendo os demais compartimentos representados por um relevo muito dissecado, vales encaixados e vales suspensos e escalonados ao longo das vertentes escarpadas. Litologicamente a área é caracterizada pelos ortognaisses do Complexo Rio Negro e granitóides Serra dos Órgãos, englobados pelo Domínio Rio Negro, diques mesozóicos e sedimentos quaternários (ALMEIDA, 2001).
A bacia apresenta o eixo principal da drenagem orientado na direção NE, definida pela estruturação pré-Cambriana, associada às zonas de cisalhamento, que foram reativadas pela tectônica extensional Waldeniana (ALMEIDA, 1967) ou Sul-Atlantiana (SCHOBBENHAUS & CAMPOS, 1984) a partir do Triássico até o Paleogeno, que culminou com a ruptura e separação entre América do Sul e a África, desenvolvimento de margem continental passiva e abertura do Oceano Atlântico (MORALES & HASUI, 2001). Esse tectonismo foi responsável pela geração de falhas e lineamentos de direção NE-SW, E-W, NW-SE e N-S, com movimentação de blocos sob regime tectônico distensivo, gerando soerguimentos e abatimentos de blocos por falhas (horstes e grábens), criando grandes traços do relevo, como a Serra do Mar, altos e depressões (arcos e bacias) e possibilitou derrames vulcânicos, intrusões e sedimentação (MORALES & HASUI, 2001).
Os depósitos aluviais assumem importância fundamental no trabalho, já que estão diretamente associados ao estágio de evolução (dissecação) da rede de drenagem por serem eixos altamente sensitivos à transmissão dos inputs desencadeadores de mudanças na paisagem (THOMAS & ALLISON, 1993). Busca-se na rede de drenagem as respostas para as manifestações tectônicas recentes da paisagem, já que os sistemas fluviais são os seguimentos da paisagem mais sensitivos, capazes de se ajustarem às deformações em períodos de décadas a séculos.

Metodologia

Os resultados foram alcançados a partir de investigações de campo (mapeamento e análise das coberturas pedológicas quanto aos ambientes e materiais de formação, coleta de dados estruturais como falhas e famílias de fraturas e juntas), de laboratório (análises morfológicas, físico-mecânicas, químicas e mineralógicas) e de gabinete (mapeamentos, como os de compartimentação morfotectônica e geomorfológica), que possibilitaram evidenciar uma diferenciação na pedogênese desenvolvida a partir desses materiais aluviais sob distintos compartimentos morfotectônicos e topográficos. Os solos que ocorrem nas zonas de depressão de fundo de vale são do tipo Gleissolos Háplicos e Melânicos (EMBRAPA, 1999). Já os desenvolvidos a partir dos terraços são os Neossolos Flúvicos (op.cit.). Nas posições topográficas que correspondem aos alvéolos, ocorrem tanto Neossolos Flúvicos como Cambissolos Háplicos (op.cit.).
As análises obtidas a partir dos mapeamentos e da compartimentação morfotectônica foram realizadas com o objetivo de compreender as condições morfotectônicas associadas à evolução e dinâmica da bacia do rio Bonito e, dessa forma, o seu reflexo nos processos relacionados à gênese e evolução dos solos. Estes mapeamentos foram elaborados com base na análise dos lineamentos da rede de drenagem e estruturais e na distribuição da cobertura sedimentar, a partir de metodologia adaptada e desenvolvida, para regiões de ambiente tectônico intraplaca, pelo grupo de estudos neotectônicos da UNESP – Universidade Estadual Paulista (HASUI & COSTA, 1996; HASUI et al., 1998; BORGES et al., 1998; MORALES & HASUI, 2001).

Resultados e conclusão

A partir dos dados obtidos até o momento, os elementos mais importantes na identificação da pedogênese diferenciada sugerem possível deslocamento tectônico das áreas onde estão situados os perfis de solos, em função do escalonamento de estruturas com orientação SW-NE, que geram uma morfologia assimétrica, assim como em função do truncamento de lineamentos com direcionamentos distintos que atuaram na geração de áreas soerguidas e áreas deprimidas; expressivo desenvolvimento (profundidade) de perfis de solos analisados dentro de unidades de compartimentação morfotectônica e de compartimentação geomorfológica definidas como vales suspensos (alvéolos), superior ao constatado para perfis situados nos fundos de vale.
A atuação de processos pedogenéticos diferenciados se reflete nas características físicas, mineralógicas e químicas dos solos que também indicam a transformação de uma cobertura inicial em outra cobertura, como o caso de solos com horizonte B câmbico, originados a partir de solos aluviais; um aumento gradual nos percentuais de argila em profundidade; além da constatação de desenvolvimento de horizontes glei a 100 cm de profundidade, indicando condições de drenagem deficiente em situação pretérita (anterior planície de inundação).
A evolução geológico-geomorfológica da área se reflete numa compartimentação do relevo que promove condições ambientais específicas, a partir do deslocamento de blocos por tectonismo e, por sua vez, geração de áreas deprimidas e outras soerguidas, que atuam no desenvolvimento de coberturas pedológicas diferenciadas espacialmente.
O entendimento da relação entre as estruturas observadas até o momento na área com a estruturação e dinâmica da paisagem, sobretudo no que se refere a pedogênese, merece maior aprofundamento, principalmente no que se refere à identificação de estruturas tectônicas, que atuariam como condicionantes na evolução dos solos, bem como na morfologia, na rede de drenagem e na distribuição espacial da cobertura sedimentar. Estudos com esta abordagem estão sendo desenvolvidos, representando uma tentativa de compreensão sobre as condições geológicas e geomorfológicas associadas à evolução e dinâmica da área de estudo e o seu reflexo nos processos relacionados à gênese e evolução dos solos. Observa-se que tais estudos associados com processos morfotectônicos são ainda escassos no território brasileiro, embora sejam de fundamental importância para o entendimento das relações solo-paisagem.

Referências Bibliográficas

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THOMAS, D.S.C. & ALLISON, R.J. (1993) Landscape Sensitivity. Chichester: John Wiley & Sons.